AVC

 

O prognóstico funcional, ou recuperação das funções alteradas pela lesão cerebral depende do tipo, extensão e gravidade da lesão. Segundo Simón, o prognóstico é mais grave em caso de hemorragia do que de trombose.

Outro aspecto importante a considerar no prognóstico é a idade do doente. O cérebro de indivíduos mais jovens tem maior adaptabilidade funcional e, por isso, maior potencialidade de recuperação. A ausência de reflexo oculocefalógiro, incapacidade para virar o olhar para o lado dos membros com paralisia quando em combinação com uma hemiplegia grave, alteração dos reflexos pupilares, e a afecção dos reflexos oculovestibulares são indicação de mau prognóstico.

Segundo Anderson, 23% dos que têm um AVC morrem nos sete dias seguintes, 31% nas três semanas seguintes e 48% antes do final do primeiro ano após o AVC. Em resumo, segundo este autor, independentemente do entretanto, cerca de um terço dos doentes morre por causa do AVC e a maioria morre cedo. Quanto mais jovem é o doente maior é a probabilidade de sobreviver.

A recuperação segue uma curva ascendente entre os três e os seis meses, para alcançar cerca de 85 a 90% da recuperação possível entre os 12 e os 18 meses. Segundo Simón, os estudos de seguimento de indivíduos que sofreram AVC extensos mostraram que só uma pequena parte dos doentes regressa ao trabalho, em consequência das sequelas físicas e cognitivas que limitam a acção do indivíduo.

Segundo Anderson , um ano depois do AVC, mais de metade dos sobreviventes não evidenciava hemiparesia ou hemiplegia.

A recuperação dos doentes visa as áreas afectadas e a recuperação deve começar o mais breve possível. Para além das consequências motoras e cognitivas, que são consequências directas da lesão, há alterações psicológicas a nível emocional (ansiedade e depressão),desânimo, assim como de variáveis de auto - referência, tais como, autoeficácia, autoconceito, auto-estima e de suporte social, que vão afectar o empenho do doente na recuperação. A diminuição das expectativas por via da interacção das variáveis cognitivas, emocionais e físicas, reduz a motivação do doente para se empenhar na recuperação, sendo mais grave quanto mais avançada for a idade do doente (Pais Ribeiro, 2005).

 
Brevemente
 

 

Os indivíduos com lesão neurológica do hemicorpo estão predispostos ao aparecimento de problemas secundários e/ou complicações, relacionados com o seu estado patológico que frequentemente, funcionam como um obstáculo à reabilitação dos mesmos.

 As complicações possíveis de um AVC incluem:

• Pneumonia;

• Formação de coágulos de sangue nas veias das pernas, os quais podem atingir a

circulação pulmonar (artéria pulmonar), provocando uma embolia pulmonar

potencialmente fatal;

• Infecção do tracto respiratório;

• Incontinência urinária;

• Obstipação.

Para além destas complicações existem ainda alguns problemas motores, problemas estes que surgem como complicação secundária da hemiplegia:

• Síndrome ombro-mão;

• Ombro doloroso;

• Subluxação do ombro;

• Edema da mão.

 

 

Alterações das funções motoras

- Alterações do tónus

Logo após o AVC, o hemicorpo afectado apresenta um estado de flacidez sem movimentos voluntários, ou seja, o tónus é muito baixo para iniciar o movimento, não há resistência ao movimento passivo e o indivíduo é incapaz de manter um membro em qualquer posição, especialmente durante as primeiras semanas. Em alguns casos a flacidez permanece por apenas  algumas horas ou dias mas raramente persiste indefinidamente.

Todas estas alterações levam à ausência de consciencialização e de perda dos padrões de movimento do hemicorpo afectado, bem como a padrões inadequados do lado não afectado (utilizado como compensação). Assim, o indivíduo não consegue rolar, sentar-se sem apoio, manter-se de pé, e tem tendência para transferir o seu peso para o lado são, por falta de noção da linha média.

- Presença de reacções associadas

Segundo Bobath (1990), as reacções associadas definem-se como respostas automáticas anormais estereotipadas dos membros afectados resultantes de uma acção ocorrida em qualquer parte do corpo, por estimulação reflexa ou voluntária (ex.: tossir, espirrar, esforço), inibindo a função.

- Perda do mecanismo de controlo postural

O mecanismo de controlo postural é a base para a realização dos movimentos voluntários normais especializados. Este mecanismo é constituído por três grupos de reacções posturais automáticas, sendo estas as reacções de rectificação (mantêm a posição normal da cabeça no espaço), as reacções de equilíbrio (respostas automáticas a alterações de postura e movimento) e as reacções de extensão protectiva (quando as reacções de equilíbrio e de rectificação se mostram insuficientes).

Num indivíduo que tenha sofrido um AVC as reacções posturais automáticas descritas não funcionam no hemicorpo afectado, o que impede o indivíduo de usar uma variedade de padrões normais de postura e de movimento, essenciais para a realização de actividades funcionais tais como as transferências, o rolar, o sentar, o manter a posição de pé, o andar e a realização de actividades da vida diária.

- Alterações da função sensorial

As alterações sensoriais mais frequentes e observáveis nos casos de lesão neurológica do hemicorpo são os défices sensoriais superficiais, proprioceptivos e visuais. A diminuição e ou abolição da sensibilidade superficial (táctil, térmica e dolorosa), contribui para o aparecimento de disfunções perceptivas e para o risco de auto lesões.

A diminuição da sensibilidade proprioceptiva (postural e vibratória) contribui para a perda da capacidade para executar movimentos eficientes e controlados, para a diminuição da sensação e noção de posição e de movimento, impedindo e diminuindo novas aprendizagens motoras no hemicorpo afectado.


- Alterações da função perceptiva

Após a ocorrência de AVC poderão estar presentes alguns défices perceptivos. O seu tipo e extensão vão depender do local da lesão.       As lesões do hemisfério não dominante (para a maioria dos indivíduos o hemisfério direito) produzem distúrbios da percepção. Os distúrbios podem ser a nível da figura de fundo, posição no espaço, constância da forma, percepção da profundidade, relações espaciais e orientação topográfica.

A apraxia e a agnosia são outros dos distúrbios frequentes em indivíduos que sofreram um AVC. A apraxia consiste na incapacidade para  programar uma sequência de movimentos, apesar das funções motora e sensorial estarem aparentemente conservadas. A apraxia pode manifestar-se de várias formas, sendo estas, a apraxia ideomotora (gestos); a apraxia ideativa (tarefa); a apraxia do vestir (incapacidade para efectuar as tarefas funcionais do acto de vestir) e a apraxia construtiva (incapacidade para construir modelos a duas ou a três dimensões).

A agnosia, consiste na incapacidade de reconhecer objectos familiares de uso pessoal, e de lhe dar uma função, ainda que os órgãos sensoriais não estejam lesados.

Alterações da Comunicação

Os problemas da comunicação são frequentes nos indivíduos que sofreram um AVC, porobstrução da artéria cerebral média no hemisfério esquerdo. A afasia é uma perturbação da linguagem que resulta de uma lesão cerebral, localizada nas estruturas que se supõe estarem envolvidas no processo da linguagem.

Alterações do Comportamento

Os indivíduos com lesão no hemicorpo esquerdo e direito diferem amplamente nos seus efeitos comportamentais. Os indivíduos com lesão do hemicorpo direito, tem um comportamento lento, são muito cuidadosos, incertos e inseguros, logo, ao desempenharem tarefas estes apresentam-se ansiosos e hesitantes, exigindo frequentemente “feedback” e apoio. Eles também tendem a ser realistas na avaliação dos próprios problemas. A labilidade emocional é geralmente encontrada nos casos de hemiplegia. Os indivíduos apresentam emoções instáveis, sendo capaz de inibir a expressão das emoções espontâneas, que rapidamente alteram o seu comportamento emocional sem qualquer razão aparente.

 

 

 

O enfarte e a hemorragia têm em comum a sua manifestação clínica mais frequente: a hemiplegia.

Nos dois casos, o início é marcado pela ocorrência brutal ou rapidamente progressiva duma paralisia do hemicorpo contralateral à lesão. Em caso de enfarte, a hemiplegia instala-se subitamente em alguns minutos ou horas. Em caso de hemorragia, a ocorrência é com frequência mais dramática, acompanhada de cefaleias intensas e de vómitos, às vezes uma perda deconsciência breve ou que se prolonga para coma.

Nestes casos é também frequente observar igualmente alterações neurovegetativas, tais como modificação do ritmo cardíaco, da tensão arterial, da temperatura corporal, do ritmo respiratório, acompanhadas por perturbações da consciência. Conforme a topografia da lesão poderão surgir outros sintomas associados à hemiplegia: hemianopsia, alteração da sensibilidade do hemicorpo paralisado, perturbação da linguagem quando a lesão está localizada no hemisfério esquerdo e alteração da consciência do espaço e do corpo quando a lesão é do lado direito.

 

 
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